Santa Casa de Bagé tem déficit mensal de R$ 1,2 milhão, aponta direção do hospital
A direção da Santa Casa de Caridade de Bagé apresentou nesta quarta-feira um balanço da situação financeira da instituição e dos desafios para manter serviços considerados estratégicos para a região. Em coletiva de imprensa, representantes do hospital detalharam receitas, despesas, dívidas acumuladas e iniciativas em andamento para buscar recursos junto aos governos estadual e federal.
As informações foram apresentadas pelo vice-provedor Carlos Eduardo dos Santos, pelo gerente administrativo Aires Prado, pelo responsável pelas Relações Institucionais Rafael Amaral e pelo procurador jurídico Anderson Ceolin.
Segundo os dados divulgados, a Santa Casa tem receita média mensal próxima de R$ 6,9 milhões, enquanto as despesas superam R$ 8,1 milhões. O resultado é um déficit superior a R$ 1,2 milhão por mês — cenário que, segundo a administração, vem se agravando com o aumento dos custos assistenciais e a defasagem dos repasses do Sistema Único de Saúde (SUS).
Sobre os atrasos nos pagamentos aos profissionais da saúde, Santos destacou que a situação não significa que médicos e demais prestadores estejam há oito meses sem receber. Segundo ele, o atraso já existia quando a atual gestão assumiu a instituição e chegou a ser reduzido ao longo dos anos, mas voltou a crescer diante das dificuldades financeiras. “Se em março de 2020 havia um atraso de oito meses e hoje, em junho de 2026, temos um atraso de oito meses, significa que, ao longo desses 74 meses, a classe médica recebeu 74 meses de pagamentos”, afirma.
Os números apresentados pela administração mostram que alguns dos principais serviços mantidos pela instituição operam com déficit permanente. O Pronto-Socorro registrou resultado negativo superior a R$ 300 mil em um único mês analisado pela gestão. A UTI e o bloco obstétrico também têm custos superiores aos valores recebidos pelo SUS, com déficit mensal de R$ 825 mil e R$ 463 mil, respectivamente.
Aires Prado explicou que a instituição consegue equilibrar mensalmente as despesas apenas porque parte dos pagamentos aos profissionais da área médica é postergada. “Com recursos próprios da Santa Casa, temos capacidade de pagar entre 40% e 45% da folha médica. É isso que permite fechar as contas mês a mês”, afirma.
Segundo o vice-provedor, a Santa Casa mantém diálogo permanente com o Ministério Público para garantir a continuidade dos atendimentos. As escalas do bloco obstétrico vêm sendo apresentadas semanalmente ao órgão, como parte das medidas para monitorar a capacidade de funcionamento do serviço diante da redução no número de profissionais. A instituição também recorre a médicos de outras cidades para complementar os plantões e evitar interrupções no atendimento.
Santos ressaltou que a dificuldade não está relacionada apenas a recursos financeiros. “Nesse caso, não é por falta de recurso financeiro. Há uma carência de obstetras no Brasil inteiro e nós temos dificuldade de trazer profissionais para cá”, declara.
Questionado sobre os impactos práticos da crise para os usuários do hospital, Santos afirmou que alguns serviços já sofrem reflexos das dificuldades enfrentadas pela instituição. A redução ocorre principalmente em atendimentos ambulatoriais, especialmente em especialidades médicas, mas não atinge os setores considerados estratégicos para a assistência regional. “Não trabalhamos com a hipótese de fechamento do pronto-socorro. De nenhum serviço”, afirma, ao ser questionado sobre a possibilidade de interrupções permanentes de atendimento.
A situação do bloco obstétrico foi tema de reuniões conduzidas pela Secretaria Estadual da Saúde com os municípios atendidos pelo serviço. Segundo Santos, cinco dos seis municípios da região concordaram em participar de um consórcio de apoio ao custeio da estrutura. Bagé foi o único a não aderir à proposta. “Não é uma obrigação legal, mas é uma escolha”, afirma o vice-provedor. Conforme os dados apresentados, cerca de 67% da demanda do bloco obstétrico vem de Bagé.
Santos ressaltou que a Santa Casa não busca confronto com a administração municipal. “Em nenhum momento houve enfrentamento por parte do hospital junto ao município. O que o hospital fez foi pedir ajuda, pedir auxílio”, declara.
O procurador jurídico Anderson Ceolin também abordou a questão financeira envolvendo o Executivo municipal. Segundo ele, há valores em discussão judicial referentes a atendimentos assistenciais, repasses previstos em legislação municipal e à utilização do imóvel da Escola Bidart. “Hoje a Prefeitura deve ao hospital cerca de R$ 6,6 milhões, considerando débitos assistenciais, repasses previstos em lei e a utilização do imóvel da Escola Bidart”, afirma.
A direção apresentou alternativas que considera fundamentais para a recuperação financeira da instituição. Uma delas é um pedido de ressarcimento relacionado à defasagem da tabela SUS entre 2018 e 2024, cujos cálculos apontam para aproximadamente R$ 59 milhões. Segundo Santos, o pleito já foi reconhecido pelo governo do Estado e pelo Ministério da Saúde, mas ainda depende de formalização para a liberação dos recursos.
Outra reivindicação envolve a revisão do teto MAC (Média e Alta Complexidade), mecanismo que define parte dos recursos repassados aos hospitais que atendem pelo SUS. A Santa Casa sustenta que teria direito a um incremento anual de aproximadamente R$ 25,5 milhões — um aumento superior a R$ 2 milhões por mês nos repasses recebidos.
Para a provedoria, a liberação desses recursos teria impacto direto na recuperação financeira da instituição. “Uma assinatura e esses R$ 59 milhões chegariam a Bagé. Com isso, seria possível quitar débitos com a classe médica, fornecedores e ainda realizar investimentos no hospital”, afirma Santos.
Rafael Amaral defendeu a necessidade de ampliar o debate sobre o financiamento da saúde pública e destacou que os hospitais filantrópicos acabam absorvendo parte dos custos não cobertos pelo SUS. “A saúde não tem preço, mas tem custo. Quanto mais SUS se atende, maior é o prejuízo para a instituição”, observa.
Segundo Amaral, tanto o pedido de ressarcimento da tabela SUS quanto a revisão do teto MAC utilizam dados reconhecidos pelos próprios órgãos federais. Para a administração, a articulação política da região junto ao governo federal será fundamental para acelerar a análise e a liberação dos recursos.
Ao final da coletiva, a direção reiterou que as contas da instituição estão abertas à fiscalização e que não se opõe à realização de novas auditorias. A direção também reforçou o apelo para que lideranças políticas, entidades e a comunidade atuem de forma conjunta na busca de soluções para garantir a sustentabilidade financeira da Santa Casa e a manutenção dos serviços prestados à população de Bagé e dos demais municípios atendidos pelo hospital.
Fonte: Jornal Minuano



