Médico oncologista é investigado em esquema de remédios falsos para pacientes com câncer no RS
Operação Placebo mira grupo suspeito de fraudar concorrências e usar empresas de fachada. Empresário foi preso e polícia cumpriu mandados contra outras 14 pessoas.

Um médico oncologista e três advogados estão entre os alvos da Operação Placebo, que investiga um esquema de fraude em orçamentos e também suspeita de falsificação de remédios oferecidos a pacientes com câncer no Rio Grande do Sul. Os medicamentos foram comprados com recursos públicos. Um empresário foi preso.Nesta segunda-feira (29), a Polícia Civil cumpre 57 mandados de busca e um de prisão para investigar o grupo. A apuração é da Delegacia de Polícia de São Gabriel. As medidas cautelares têm como alvo 15 pessoas e 14 empresas investigadas.
A defesa do oncologista Fernando Borges da Silva afirma que ele “nega a prática de qualquer conduta ilícita, está à disposição da Justiça e confia que os fatos serão devidamente esclarecidos no curso das investigações”. Já a defesa da advogada Rita Gabriela Schweickardt Werner diz que ela está à disposição da Justiça. Leia as notas completas abaixo. Os outros dois advogados ainda não constituíram defesa, segundo a polícia.
Preso durante a operação, o empresário de São Gabriel Lisandro Henriques Hermes é apontado, segundo a Polícia Civil, como o principal articulador do grupo. Os investigadores afirmam que ele controlaria direta ou indiretamente empresas que participariam das concorrências apresentadas nos processos judiciais, entre as quais a Licifarma e a LH Medicamentos.
O empresário negou as acusações e disse que não tem relação com os advogados e o médico investigados. Disse, ainda, que desconhece a suspeita de falsificação de medicamentos.Com ele, a polícia apreendeu dezenas de caixas com remédios, suplementos alimentares e cartelas de medicamentos sem identificação. Ele alegou que os produtos foram descartados por uma fábrica por controle de qualidade, mas não soube explicar por que a própria fábrica não fez o descarte.A Polícia Civil sustenta que Lisandro utilizava sócios formais, conhecidos como “laranjas”, para ocultar o verdadeiro controle dos negócios.
Embalagem de remédio com erros chamou atenção de farmacêutica
A investigação começou quando uma farmacêutica da Santa Casa de São Gabriel , na Fronteira Oeste do RS, desconfiou de falsificação ao analisar as embalagens de um medicamento para pacientes com câncer de mama. O medicamento é o Enhertu. Uma única compra chegava a custar R$ 800 mil e trata-se de dinheiro público, bloqueado pela Justiça para garantir o tratamento. O remédio apresentava inconsistências e até erros de grafia na embalagem.A polícia aponta a participação do oncologista Fernando Borges da Silva, de Santa Maria, que seria responsável pelos laudos médicos utilizados nas ações judiciais. Conforme o delegado Daniel Severo, caberia a ele a captação dos pacientes, encaminhando-os aos advogados pertencentes ao esquema.
“Eles têm claramente ali um médico que é o que capta os clientes. Duas pacientes nos confirmaram que é ele quem indica. Aliás, ele tem cartões desses advogados à disposição para entregar para os pacientes que não conseguiram o medicamento nas farmácias do Estado”, explica o delegado.
Em nota, o Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers) disse que instaurará “uma sindicância para apurar a situação assim que tiver conhecimento oficial dos fatos”.
Entre os investigados estão ainda três advogados
“Esse núcleo jurídico acionava o núcleo empresarial. É uma articulação grande. O núcleo jurídico aciona o empresarial para fraudar a concorrência, ou seja, são só as farmácias ligadas a eles que ganham”, detalhou o delegado.
Além do médico, os advogados Éverson Dornelles de Dornelles, Esther Cowan Kotula e Rita Gabriela Schweickardt Werner estão entre os alvos de mandados de busca e apreensão. Tanto o oncologista quanto os advogados tiveram o exercício profissional proibido pela Justiça, em medida cautelar solicitada pela Polícia Civil.
A investigação aponta que foram até agora identificadas 39 vítimas do esquema, sendo que sete delas faleceram durante o tratamento. Ainda não se sabe se as mortes foram causadas pela medicação.
O g1 procurou as defesas dos investigados e aguarda retorno.
Anvisa proibiu comercialização
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou, ainda em fevereiro deste ano, a apreensão e proibiu a comercialização e a distribuição de um lote do medicamento oncológico Enhertu (trastuzumabe deruxtecana) após a identificação de unidades com características diferentes das do produto original.
A medida foi publicada por meio da Resolução-RE nº 641, de 18 de fevereiro de 2026, e atingiu o lote 416466. Segundo a Anvisa, a fabricante Daiichi Sankyo Brasil comunicou a existência de frascos com dimensões superiores ao padrão habitual, descascamento nas tampas e divergências na coloração e no material utilizado no fechamento das embalagens.
De acordo com a empresa, o medicamento original possui tampa amarela com acabamento plástico, enquanto as unidades suspeitas apresentavam tampa metálica pintada de amarelo, um dos indícios de falsificação.
O que dizem os investigados
Defesa de Fernando Borges da Silva: “Na qualidade de defensor do médico investigado, informamos que ele nega a prática de qualquer conduta ilícita, está à disposição da Justiça e confia que os fatos serão devidamente esclarecidos no curso das investigações.”
Defesa de Rita Gabriela Schweickardt Werner: “A defesa esclarece que a Advogada contribuirá, na medida de seu conhecimento, para o completo esclarecimento da verdade, tão logo tenha acesso ao conteúdo das investigações, a fim de compreender exatamente quais fatos estão sendo apurados.
De toda forma, mesmo triste, consternada, permanece tranquila, pois ao longo de sua trajetória profissional sempre exerceu a advocacia dentro dos limites da ética, da legalidade e do compromisso com a correta prestação jurisdicional em favor de seus clientes, princípios que norteiam o exercício diário da sua atuação e a deixam tranquila em relação ao resultado das investigações.
Por respeito ao regular andamento das investigações e às instituições responsáveis pela apuração dos fatos, a defesa não fará comentários sobre o mérito neste momento, reiterando sua confiança de que a verdade será integralmente esclarecida pelos canais adequados, o que, registra-se, é de total interesse da colega.”
De acordo com a Polícia Civil, Éverson Dornelles de Dornelles e Esther Cowan Kotula ainda não apresentaram defesa e não estão presos.
O que dizem Anvisa e o laboratório
Confira a íntegra de nota da Anvisa
“A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou a Resolução-RE nº 641, de 18 de fevereiro de 2026, determinando a apreensão e a proibição da comercialização e distribuição do medicamento ENHERTU, lote 416466, após a identificação de unidades com características divergentes do produto original. A medida foi adotada com base em comunicado da empresa DAIICHI SANKYO BRASIL FARMACÊUTICA LTDA., que informou ter identificado no mercado frascos com dimensões superiores ao padrão habitual, descascamento nas tampas e divergências na coloração e no material utilizado nas tampas das embalagens.
Segundo a fabricante, o produto original possui tampa amarela com aparência plástica, enquanto as unidades suspeitas apresentam tampa metálica pintada de amarelo. Diante das irregularidades encontradas, a Anvisa determinou a apreensão das unidades e proibiu sua comercialização e distribuição em todo o território nacional. A orientação é para que distribuidores, farmácias, hospitais e demais serviços de saúde verifiquem seus estoques e interrompam imediatamente qualquer circulação do lote mencionado, comunicando às autoridades sanitárias locais e à fabricante caso sejam identificadas unidades com as características descritas.”
Confira a íntegra de nota do laboratório
“A Daiichi Sankyo Brasil informa que tomou conhecimento de unidades falsificadas de Enhertu®️ (trastuzumabe deruxtecana), relacionadas a um lote específico identificado como 394373, que não corresponde aos produtos fabricados pela empresa e adquiridos por meio de fornecedores homologados.
Imediatamente após a identificação da suspeita, em junho de 2025, a empresa notificou a Anvisa e demais autoridades competentes, iniciando apuração rigorosa do caso e colaborando integralmente com as investigações.
A Daiichi Sankyo reforça que não houve qualquer alteração na fabricação ou na qualidade dos produtos regularmente produzidos pela companhia. A saúde e segurança dos pacientes é prioridade absoluta para nós, e todas as medidas cabíveis foram adotadas com agilidade e responsabilidade.
A empresa orienta que profissionais de saúde e instituições adquiram medicamentos exclusivamente de distribuidores homologados disponíveis em nosso site e que qualquer suspeita seja comunicada às autoridades sanitárias e ao Serviço de Atendimento ao Cliente da companhia:
0800 055 6596
A Daiichi Sankyo permanece à disposição para esclarecimentos e segue comprometida com os mais altos padrões de qualidade, ética e responsabilidade em todas as suas operações no Brasil.”
Fonte: G1




