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Do Santa Terezinha a Florença: pedritense leva a paleontologia gaúcha à Itália

Doutorando da UFRGS, formado nas escolas públicas de Dom Pedrito, conta como saiu do interior para pesquisar pegadas de dinossauros na Toscana

Entre os fósseis que Denner Deiques, natural de Dom Pedrito, estuda hoje na Itália, estão pegadas deixadas por animais que viveram há milhões de anos. A sua própria pegada, no entanto, também é longa. Filho de pais que precisaram interromper os estudos ainda no ensino fundamental, ele saiu da cidade da Campanha para cursar Ciências Biológicas em Rio Grande e hoje faz doutorado-sanduíche na Università degli Studi di Firenze, em Florença.

Doutorando em Geociências, com ênfase em Paleontologia, pela Universidade Federal de Rio Grande  (UFRG), Denner foi selecionado para o Programa de Doutorado-Sanduíche no Exterior (PDSE), financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Na entrevista a seguir, ele fala da origem do interesse por fósseis, da trajetória até a Itália, da pesquisa que desenvolve e do recado que deixa aos jovens do interior.

“Um interesse que me acompanha desde a infância”

Tudo começa pela pergunta mais simples: por que a Paleontologia?

“A Paleontologia é um interesse que me acompanha desde a infância. Sempre fui fascinado por dinossauros, fósseis e pela ludicidade que esse universo desperta. No entanto, a decisão de seguir profissionalmente nessa área surgiu durante a graduação, quando tive meus primeiros contatos diretos com os fósseis.”

A virada veio no estágio no Laboratório de Geologia e Paleontologia da Universidade Federal de Rio Grande (FURG).

“Lá, pude vivenciar a rotina de pesquisa, participar de trabalhos de campo e aprender técnicas de coleta e análise de fósseis. Foi nesse momento que percebi que queria transformar aquele interesse de infância em uma carreira científica.”

Foto na Galleria dell'Academia de Florença, onde fica a estátua do David de Michelangelo
Foto na Galleria dell’Academia de Florença, onde fica a estátua do David de Michelangelo

Da graduação ao doutorado

O percurso acadêmico de Denner soma quase uma década e três etapas.

“Minha trajetória acadêmica começou em 2017, quando ingressei no curso de Ciências Biológicas (Bacharelado) da Universidade Federal de Rio Grande (FURG), em Rio Grande. Durante a graduação, tive a oportunidade de conhecer diferentes áreas da Biologia, atuando em projetos relacionados à saúde humana, genética, geologia, botânica e paleontologia, área que posteriormente escolhi para seguir na pós-graduação.”

Fora da bancada, participou de projetos de extensão e ensino.

“Entre eles, a Exposição Itinerante de Paleontologia, iniciativa que leva fósseis e réplicas para escolas da região com o objetivo de divulgar a ciência e conscientizar estudantes e professores sobre a importância do patrimônio fossilífero do Rio Grande do Sul. Também participei do projeto Café com Ciência, que promovia palestras e debates sobre diferentes temas das Ciências Biológicas dentro da universidade.”

O mestrado, na UFRGS, em Porto Alegre, rendeu os resultados de maior repercussão.

“Em 2021, ingressei no Mestrado em Geociências, com ênfase em Paleontologia, no Programa de Pós-Graduação em Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Durante essa etapa, desenvolvi uma pesquisa voltada à identificação e descrição de pegadas de dinossauros encontradas no município de Rosário do Sul. Entre os principais resultados, realizei a primeira identificação em nível de gênero de uma das pegadas jurássicas da Formação Guará, de um dinossauro terópode. Os terópodes são o grupo ao qual pertence o famoso Tyrannosaurus rex, e as evidências indicam que a pegada foi produzida por um grande representante dos megalossaurídeos. A pesquisa também revelou o segundo registro de Ankylosauria encontrado no país, atualmente incorporado à coleção científica do Laboratório de Paleontologia de Vertebrados da UFRGS.”

O projeto também deixou marcas fora do laboratório.

“O trabalho ainda trouxe contribuições importantes para a compreensão dos processos de preservação dessas pegadas fósseis, que sofrem intensa erosão devido à fragilidade das rochas e à sua ocorrência em estradas da zona rural. Esse projeto, iniciado ainda durante minha graduação e realizado em parceria com a Prefeitura de Rosário do Sul, também gerou impactos na conservação do patrimônio paleontológico local. Entre os resultados, destacam-se a criação de um decreto municipal de proteção às pegadas e a produção de materiais educativos distribuídos em escolas e nas redes sociais do município.”

O doutorado, iniciado em 2023, é a etapa atual.

“Em 2023, ingressei no Doutorado em Geociências, também na área de Paleontologia, no mesmo programa de pós-graduação da UFRGS. Atualmente, desenvolvo uma pesquisa sobre os processos de preservação de pegadas fósseis de vertebrados, investigando especialmente a influência dos tapetes microbianos na interação entre organismos e sedimentos. Esses processos podem alterar significativamente a forma como as pegadas são preservadas no registro fóssil, influenciando nossa interpretação sobre os animais que as produziram.”

“A trajetória começou antes da universidade”

Antes das universidades, houveram duas escolas estaduais de Dom Pedrito.

“Mas minha trajetória acadêmica começou antes da universidade. Cursei o ensino fundamental na Escola Estadual de Ensino Fundamental Arthur Villamil de Castro, no bairro Santa Terezinha, em Dom Pedrito, onde tive meus primeiros contatos mais marcantes com a ciência, tanto em sala de aula quanto nas tardes passadas na biblioteca da escola. Já o ensino médio foi realizado na Escola Estadual de Ensino Médio Nossa Senhora do Patrocínio, o Patrola. Foi nesse período que meu interesse pelas Ciências da Natureza passou a se direcionar mais fortemente para a Biologia, muito influenciado pelas aulas da professora Márcia Garcez de Ávila, que teve um papel importante na minha formação e na escolha da carreira científica.”

“Deixar a cidade, a família e a rede de apoio”

Chegar ao doutorado exigiu, antes, deixar Dom Pedrito.

“A decisão de sair de Dom Pedrito para estudar foi bastante difícil. Como acontece com muitos jovens do interior, deixar a cidade, a família e a rede de apoio para buscar uma formação acadêmica em outro município trouxe muitas incertezas. No meu caso, esse processo foi ainda mais desafiador porque minha família não teve acesso às oportunidades educacionais que eu tive. Meus pais precisaram interromper os estudos ainda no ensino fundamental para trabalhar e ajudar suas famílias. Por isso, grande parte da minha trajetória acadêmica foi construída em um contexto de descobertas para todos nós. Muitas vezes, tanto eu quanto minha família estávamos aprendendo juntos sobre como funcionavam a universidade, a pesquisa científica e a pós-graduação.”

Hoje, ele olha para trás com outra perspectiva.

“Apesar das dificuldades, sempre contei com o apoio deles, que compreenderam a importância da educação como uma ferramenta de transformação. Olhando hoje para o caminho percorrido, desde as escolas de Dom Pedrito até o doutorado e a experiência internacional, sinto que essa trajetória também representa o esforço coletivo da minha família e de todas as pessoas ao meu redor que acreditam nesse poder transformador da educação.”

Como a Itália entrou no caminho

A bolsa que o levou a Florença tem regras próprias de acesso.

“A oportunidade surgiu por meio de uma bolsa do Programa de Doutorado-Sanduíche no Exterior (PDSE), financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), fundação vinculada ao Ministério da Educação responsável pelo fomento e pela avaliação da pós-graduação brasileira. O programa permite que doutorandos desenvolvam parte de suas pesquisas em instituições estrangeiras de excelência, promovendo a internacionalização da ciência produzida no Brasil. Cada programa de pós-graduação recebe uma cota de bolsa e realiza um processo seletivo interno, no qual são avaliados critérios como currículo acadêmico, qualidade do projeto de pesquisa e potencial de impacto científico.”

Já a escolha do destino e do orientador teve motivo científico.

“Fui selecionado pelo Programa de Pós-Graduação em Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) para representar o programa nessa modalidade. Atualmente, realizo parte da minha pesquisa na Università degli Studi di Firenze, em Florença, na região da Toscana, Itália. Durante esse período, desenvolvo minhas pesquisas sob a supervisão do professor Matteo Belvedere, pesquisador reconhecido internacionalmente por seus estudos sobre pegadas de dinossauros e icnologia, área da Paleontologia dedicada ao estudo dos vestígios de atividade dos organismos. A escolha da instituição ocorreu justamente pela excelência das pesquisas desenvolvidas na área e pela forte compatibilidade entre os projetos realizados em Florença e as investigações que venho conduzindo no doutorado. Essa experiência tem promovido o contato com pesquisadores de diferentes países, novas metodologias de pesquisa e importantes coleções paleontológicas internacionais.”

Fotos das instalações do Departamento de Ciências da Terra da Unifi, local onde Denner está trabalhando.
Fotos das instalações do Departamento de Ciências da Terra da Unifi, local onde Denner está trabalhando.
Fotos das instalações do Departamento de Ciências da Terra da Unifi, local onde Denner está trabalhando.
Fotos das instalações do Departamento de Ciências da Terra da Unifi, local onde Denner está trabalhando.
Fotos das instalações do Departamento de Ciências da Terra da Unifi, local onde Denner está trabalhando.
Fotos das instalações do Departamento de Ciências da Terra da Unifi, local onde Denner está trabalhando.
Fotos das instalações do Departamento de Ciências da Terra da Unifi, local onde Denner está trabalhando.
Fotos das instalações do Departamento de Ciências da Terra da Unifi, local onde Denner está trabalhando.

A adaptação ao outro lado do Atlântico

E o dia a dia na Toscana?

“A adaptação tem sido tranquila. A universidade possui ótima infraestrutura e o próprio processo seletivo favorece o contato com outros pesquisadores brasileiros, o que facilita a criação de uma rede de apoio e a adaptação inicial. Neste início, tem sido importante dedicar atenção ao estudo do italiano para ampliar as possibilidades de comunicação no dia a dia. Ainda assim, a fluência em inglês já representa uma grande vantagem, especialmente pela grande quantidade de estudantes e pesquisadores estrangeiros que vivem e trabalham aqui.”

A “cola” que preserva pegadas

O foco do doutorado está na forma como os rastros sobrevivem ao tempo.

“As pegadas fósseis podem ser preservadas em diferentes contextos ambientais, como desertos úmidos, desertos áridos, ambientes fluviais e lacustres. Atualmente, sabe-se que a alta umidade presente em alguns desses ambientes favorece o desenvolvimento de microrganismos formadores de esteiras microbianas. Essas esteiras funcionam como uma espécie de ‘cola’ natural, mantendo os sedimentos mais coesos e estáveis, o que favorece a preservação da forma original das pegadas deixadas pelos organismos. Já existem diversos estudos investigando esse processo em ambientes mais úmidos.”

O diferencial do projeto está no cenário estudado.

“Na minha pesquisa, estou estudando a atuação desses microrganismos em ambientes mais áridos, onde há menor disponibilidade de umidade e condições menos favoráveis para a formação de esteiras microbianas, embora sua ocorrência ainda seja possível. O objetivo é compreender melhor como esses processos afetam a preservação das pegadas fósseis e a forma como interpretamos o registro paleontológico.”

O que as pegadas contam sobre os dinossauros

Por que estudar rastros, e não apenas ossos?

“As pegadas fósseis complementam as informações obtidas a partir dos ossos. Enquanto os esqueletos nos ajudam a entender como era a anatomia dos dinossauros, as pegadas registram momentos do comportamento desses animais em vida. Por meio delas, podemos estimar aspectos como tamanho, velocidade de deslocamento, modo de locomoção e até possíveis interações entre indivíduos. Em alguns casos, conjuntos de pegadas podem indicar que determinados animais se deslocavam em grupo ou utilizavam os mesmos caminhos com frequência.”

Os rastros guardam, ainda, informações sobre o lugar onde foram feitos.

“Além disso, as pegadas preservam informações sobre o ambiente em que foram formadas, como a consistência do solo, a presença de água e até a atividade de microrganismos. Por isso, elas funcionam como uma fotografia de um momento específico do passado, registrando não apenas o animal que passou por ali, mas também as condições do ambiente em que ele vivia.”

Modelos 3D e fósseis europeus

O estágio em Florença serve para complementar o que ele já fazia no Brasil.

“Na Itália, estou aprimorando técnicas de modelagem 3D de pegadas fósseis a partir de fotografias e vídeos, uma das especialidades do laboratório anfitrião. Essa técnica permite criar modelos tridimensionais de alta precisão, preservando digitalmente as características do material estudado e possibilitando análises remotas. Além disso, a aplicação de mapas de profundidade destaca detalhes e texturas muito sutis da rocha, que muitas vezes não são facilmente observados a olho nu.”

Há ainda uma segunda frente, de natureza comparativa.

“Outra frente importante do trabalho envolve o estudo de materiais fósseis europeus provenientes de diferentes contextos deposicionais e que também apresentam evidências de atividade microbiana. O objetivo é comparar esses registros com os materiais brasileiros que fazem parte da minha pesquisa, buscando identificar semelhanças e diferenças nos processos de preservação. Esses materiais são analisados tanto em campo, diretamente nos afloramentos, quanto em laboratório. Além disso, a experiência inclui a participação na rotina do grupo de pesquisa, em atividades de campo e na coleta de novos materiais fósseis na região.”

Foto no Museo Di San Marco, instalado num antigo convento dominicano, famoso por abrigar a maior coleção de obras do pintor renascentista e frade Beato Angelico
Foto no Museo Di San Marco, instalado num antigo convento dominicano, famoso por abrigar a maior coleção de obras do pintor renascentista e frade Beato Angelico

E Dom Pedrito, tem fóssil?

De volta à cidade natal: haveria algo para a ciência por lá?

“Sim. Embora Dom Pedrito não possua fósseis de dinossauros, o município possui registros paleontológicos importantes na região do Cerro Chato, onde ocorrem fósseis vegetais preservados nas rochas. Esses fósseis ajudam os pesquisadores a compreender como eram os ambientes e a vegetação que existiam na região há milhões de anos. Muitas vezes, associamos a Paleontologia apenas aos dinossauros, mas fósseis de plantas, invertebrados e outros organismos também fornecem informações fundamentais sobre a evolução da vida e das paisagens do passado.”

Um recado aos jovens do interior

Para encerrar, a mensagem a quem hoje está nas salas de aula da cidade.

“Eu diria para não desistirem dos seus objetivos, mesmo quando eles parecerem distantes da realidade em que vivem. Muitas vezes, para quem vem do interior, a universidade pode parecer um sonho difícil de alcançar, seja pela distância, pelas questões financeiras ou simplesmente pela falta de informação sobre os caminhos disponíveis. Eu mesmo vivi parte dessas incertezas ao longo da minha trajetória.”

“Hoje, porém, existem diversas políticas de inclusão, programas de assistência estudantil, bolsas de permanência, auxílios e ações afirmativas que ampliam o acesso ao ensino superior e ajudam os estudantes a permanecerem na universidade. Por isso, é importante buscar informação, conversar com professores, conhecer as oportunidades disponíveis e acreditar que esses espaços também pertencem a nós.”

“A educação tem o potencial de transformar vidas e abrir portas que muitas vezes nem imaginamos existir. Se eu pudesse deixar uma mensagem, seria para que os jovens tenham curiosidade, persistência e confiança no próprio potencial. A caminhada nem sempre é simples, mas pode levar a experiências e oportunidades extraordinárias.”

Foto no Museo Di San Marco, instalado num antigo convento dominicano, famoso por abrigar a maior coleção de obras do pintor renascentista e frade Beato Angelico
Foto no Museo Di San Marco, instalado num antigo convento dominicano, famoso por abrigar a maior coleção de obras do pintor renascentista e frade Beato Angelico

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