- DestaquesNOTÍCIAS

O algoritmo que forma agressores: a machosfera chegou a Dom Pedrito?

Vídeos que ensinam a “dominar” uma parceira, frases sobre “manter a mulher no lugar dela” e influenciadores que se vendem como especialistas em masculinidade viraram parte do feed de muitos adolescentes e jovens adultos. É a chamada machosfera, um conjunto de perfis, canais e comunidades que romantizam o controle sobre as mulheres e tratam qualquer sinal de autonomia feminina como ameaça. O discurso costuma vir embrulhado em papo de autoajuda e sucesso, mas o conteúdo, na prática, ensaia o roteiro que sustenta boa parte da violência doméstica no país.

Os números ajudam a entender por que isso não é um assunto distante da realidade pedritense. Somente em 2025, o Rio Grande do Sul registrou oitenta feminicídios, além de 264 tentativas, mais de 31 mil ameaças e 52,7 mil ocorrências de lesão corporal.

A grande maioria dos crimes acontece dentro de casa e é cometida por companheiros ou ex-companheiros, muitos deles já com passagem anterior por violência doméstica.

O padrão é sempre o mesmo: um homem que não aceita ser contrariado e que encontra, na internet, um discurso pronto para justificar isso como algo natural.

O tema ganhou repercussão mundial recentemente com a minissérie britânica “Adolescência”, da Netflix, que acompanha o caso de um garoto de treze anos acusado de matar uma colega de escola após ser rejeitado por ela. A produção mostra como o menino foi se aproximando de conceitos e códigos típicos da machosfera sem que os pais percebessem, e traz uma cena emblemática em que um investigador de polícia precisa recorrer ao próprio filho adolescente para entender o vocabulário usado pelos jovens envolvidos no caso. É exatamente esse ponto cego entre gerações — adultos que não reconhecem os sinais, enquanto os códigos circulam livremente entre os adolescentes — que preocupa educadores e especialistas em violência de gênero.

Dom Pedrito já reconheceu que o problema bate à porta. Recentes, em audiência pública realizada na Câmara de Vereadores, autoridades da segurança pública, do Judiciário, do Ministério Público e da Brigada Militar se reuniram justamente para discutir o enfrentamento à violência contra a mulher no município. É difícil separar esse debate do que circula nas redes: quando um adolescente aprende, em vídeos curtos, que ciúme é prova de amor e que discordância de uma mulher é desrespeito, o terreno para a violência já está sendo preparado, bem antes de qualquer agressão acontecer.

Vale lembrar que esses “coach de macho” raramente aplicam em si mesmos os conselhos de disciplina e autocontrole que vendem aos seguidores. É bem mais fácil gravar um vídeo sobre quem manda em casa do que aprender a conviver com uma mulher que discorda. Entre um discurso de empoderamento masculino e uma estatística de feminicídio, a distância às vezes é só um clique.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Por favor, considere apoiar-nos, desativando o seu bloqueador de anúncios